Saúde Íntima & Ciência

Sua vagina virou luxo. Isso é uma boa notícia?

Equipe Ginny V-Care
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Pérola rosada em uma caixa de joias de luxo, simbolizando o debate sobre saúde íntima feminina, padrões estéticos e autocuidado.

The New Luxury Flex? Your Vagina

Outro dia, uma manchete da Vogue nos fez parar:

“The New Luxury Flex? Your Vagina.”

Em tradução livre: a nova ostentação de luxo é a sua vagina?

A reportagem começa contando que Bryan Johnson, um empresário americano obcecado por longevidade, publicou nas redes sociais o resultado de um teste de microbioma vaginal da namorada. Segundo ele, ela estaria no “top 1%” das vaginas analisadas.

Sim, agora temos um ranking de vaginas.

Como se já não bastasse ter que ser boa profissional, boa mãe, boa parceira, fazer exercício, beber dois litros de água e lembrar de passar protetor solar no pescoço, aparentemente agora também podemos competir pela medalha de ouro em microbioma vaginal.

Nós também rimos, mas depois percebemos que essa história merece atenção.

A reportagem traz uma notícia importante: a saúde vaginal finalmente está recebendo investimentos, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. Empresas estão criando testes de microbioma, novos dispositivos de diagnóstico e novas possibilidades de tratamento. Segundo a Vogue, esse setor recebeu US$ 1,55 bilhão em investimentos em 2025, um crescimento de 41% em relação ao ano anterior.

Para uma área que passou tanto tempo negligenciada pela pesquisa médica, é uma excelente notícia, não é mesmo?!

Mas, conhecendo o histórico da indústria da beleza, dá para comemorar e desconfiar ao mesmo tempo.

Afinal, já nos convenceram de que precisávamos eliminar rugas, manchas, poros, celulite, flacidez e cabelos brancos. A lista de coisas que uma mulher deveria corrigir no próprio corpo é tão extensa que chega a ser surpreendente termos encontrado tempo para fazer qualquer outra coisa.

Será que agora vão querer nos convencer de que precisamos ter uma vagina melhor, uma vulva mais bonita que a das outras?

Seria uma ironia bastante cruel: depois de décadas lutando para que a saúde íntima feminina fosse levada a sério, descobrir que ganhamos mais um padrão impossível de alcançar.

Não existe vulva nota 10. Nem microbioma para ostentar.

E sua região íntima não precisa cheirar a frutas, parecer mais jovem ou atender a um padrão estético para estar saudável.

Mas cuidar da vulva também não pode ser tabu!

Somos duas médicas que criaram uma marca de skincare íntimo. Portanto, seria um tanto contraditório escrever uma newsletter inteira questionando a necessidade de produtos para essa região e, em seguida, apresentar os nossos.

Mas é justamente por isso que consideramos importante ter essa conversa.

Uma coisa é inventar um defeito para vender uma solução. Outra é desenvolver um cuidado para uma necessidade que já existe.

A pele da vulva sofre com atrito, sensibilidade, ressecamento e mudanças ao longo da vida e se beneficia de cuidados específicos, assim como acontece com a pele de outras partes do corpo.

Isso não significa que toda mulher precise de uma rotina de skincare íntimo com cinco etapas, muito menos que precise de limpeza excessiva, de perfumes ou que precise de correção no microbioma vaginal sem indicação médica.

Ter produtos para cuidar da nossa vulva significa reconhecer que conforto importa. Que uma mulher com ressecamento na área não precisa se conformar com o mal-estar e pode sim procurar uma solução. Que uma mulher que passou por um tratamento oncológico e percebeu mudanças importantes na região íntima merece ser ouvida. E que querer cuidar dessa parte do corpo não deve provocar mais constrangimento do que comprar um hidratante para as mãos.

Parece bastante razoável, não?

Curiosamente, nem sempre foi um assunto sobre o qual podíamos falar.

As perguntas que ninguém fazia

Nós somos Faigha Parzianello, radio-oncologista, e Camila Mendes, ginecologista, e foi trabalhando com mulheres em momentos diferentes da vida que começamos a perceber algo em comum.

No consultório ginecológico, apareciam mulheres com ardor, ressecamento, dor durante a relação sexual e dúvidas que tinham vergonha de verbalizar.

Na oncologia, mulheres que haviam atravessado tratamentos difíceis e agora precisavam lidar com um corpo que já não respondia da mesma maneira. Algumas entravam na menopausa muito antes do esperado. Outras descobriam que o fim do tratamento não significava o fim das consequências dele.

E, entre tantas histórias diferentes, uma pergunta se repetia:

“Por que ninguém me contou isso antes?”

Por que ninguém explicou que a queda do estrogênio pode provocar alterações importantes nos tecidos da região íntima?

Por que tantas mulheres acham que sentir dor na relação sexual é algo com que precisam aprender a conviver?

Por que ainda existe tanta vergonha de falar sobre secreção, odor ou desconforto íntimo, inclusive dentro de um consultório médico?

E por que aprendemos a cuidar de tantas partes do corpo, mas quase nunca recebemos orientações claras sobre como cuidar da nossa vulva?

Foi desse incômodo que nasceu a Ginny.

Não da ideia de que faltava alguma coisa nas mulheres. Mas da percepção de que faltavam informação, atenção e opções de cuidado adequadas às nossas necessidades.

Nem tudo precisa virar um problema. Mas problemas precisam ser levados a sério

Existe uma diferença enorme entre conhecer o próprio corpo, reconhecer os sinais que ele dá, e viver em busca de ideais irrealistas de perfeição.

A primeira traz liberdade. A segunda, convenhamos, já fazemos em excesso.

Não queremos que mulheres acordem preocupadas com a rotina de skincare pra ter a vulva mais perfeita das galáxias. Mas queremos que saibam reconhecer quando alguma coisa mudou e quando isso afeta a sua qualidade de vida.

Queremos que entendam que a região íntima tem mecanismos próprios de proteção e limpeza e que nem toda secreção ou odor indica um problema.

Que saibam que os cuidados com a pele da vulva não são os mesmos cuidados com o interior da vagina ou de outras áreas do corpo.

Que possam perguntar sobre ressecamento, sobre prazer, hormônios, dor, sexo e envelhecimento sem sentir que estão revelando algum segredo vergonhoso.

Que não percam seu tempo tentando se adaptar a desconfortos que merecem atenção.

E que encontrem profissionais capazes de investigar seus sintomas, em vez de minimizá-los e simplesmente dizer que é da idade.

E por que estamos aqui?

Criamos o It’s a good vulva day porque existem conversas que não cabem em um post de Instagram.

Queremos falar sobre menopausa, sobre libído, sobre cuidado, sobre relacionamentos, sobre autoestima. Queremos falar com mulheres que voltaram a namorar depois de décadas de casamento. Com as que não querem mais transar. Com as que querem, mas sentem dor. Com as que estão descobrindo um corpo diferente depois de um câncer, de uma gravidez ou simplesmente depois de alguns aniversários.

Vamos falar de ciência, inclusive quando a ciência ainda não tem respostas tão boas quanto gostaríamos.

E também das perguntas que ninguém faz em voz alta, embora muita gente esteja pesquisando no Google às duas da manhã.

Não vamos transformar o cuidado íntimo em mais uma obrigação na agenda de mulheres que já têm obrigações suficientes.

Queremos que ele seja uma possibilidade. Uma escolha informada, sem culpa, sem vergonha e sem a obrigação de alcançar a melhor versão de absolutamente tudo.

A reportagem da Vogue termina com uma reflexão que gostaríamos de adotar por aqui: o futuro da saúde íntima deve servir para que as mulheres conheçam melhor seus corpos, não para que se sintam mais inseguras em relação a eles.

Nós concordamos.

A vulva e a vagina finalmente viraram assunto. Já estava na hora. Só não precisa virar competição.

Bem-vinda ao It’s a good vulva day.

Perguntas frequentes

O que é microbioma vaginal?

O microbioma vaginal é o conjunto de microrganismos que vivem naturalmente na vagina. Em muitas mulheres, bactérias do gênero Lactobacillus ajudam a manter o ambiente vaginal ácido e contribuem para sua proteção. Sua composição pode variar conforme a idade, os hormônios e outras características individuais.

Como saber se o microbioma vaginal está saudável?

Não existe um único perfil de microbioma considerado ideal para todas as mulheres. A ausência de sintomas é um sinal importante, mas não garante, isoladamente, que não exista alguma alteração. Testes de microbioma não são necessários de rotina para mulheres sem sintomas e seus resultados devem ser interpretados por profissionais de saúde.

O que pode causar desequilíbrio no microbioma vaginal?

O microbioma vaginal pode sofrer alterações relacionadas a mudanças hormonais, uso de antibióticos, atividade sexual e outros fatores. Essas alterações nem sempre provocam sintomas ou representam uma doença. Quando há odor desagradável persistente, secreção diferente do habitual, ardência ou desconforto, é importante investigar a causa.

Qual é o pH vaginal normal e por que ele é importante?

Em mulheres em idade reprodutiva, o pH vaginal costuma ficar entre 3,8 e 4,5. Essa acidez está relacionada, em grande parte, à presença de lactobacilos e contribui para a proteção do ambiente vaginal. Na menopausa, o pH pode aumentar naturalmente devido à redução do estrogênio.

Como cuidar da saúde íntima feminina no dia a dia?

O cuidado íntimo envolve higiene suave da vulva, atenção a sintomas e respeito às características naturais do corpo. Evitar duchas vaginais e produtos irritantes também é importante. Não existe uma rotina única para todas as mulheres: as necessidades variam conforme a idade, a sensibilidade da pele e as mudanças hormonais.

Qual é a diferença entre microbioma vaginal e flora vaginal?

Flora vaginal é um termo tradicionalmente utilizado para descrever os microrganismos presentes na vagina. Atualmente, microbiota vaginal é o termo mais preciso para esse conjunto de microrganismos, enquanto microbioma pode incluir também seus genes e o ambiente em que vivem. Na linguagem cotidiana, os termos frequentemente aparecem como sinônimos.

Como saber se o odor vaginal é normal?

A vagina possui um odor natural, que pode variar ao longo do ciclo menstrual e conforme outras condições fisiológicas. Não precisa ter cheiro de perfume para estar saudável. Um odor forte ou desagradável, especialmente quando acompanhado de alterações de secreção, coceira ou ardência, merece avaliação ginecológica.

Sabonete íntimo pode alterar o pH vaginal?

Produtos utilizados na região íntima podem causar irritação quando possuem ingredientes inadequados ou são usados em excesso. A vagina possui mecanismos próprios de equilíbrio e não precisa ser lavada internamente. Na higiene externa, a escolha deve priorizar produtos suaves e bem tolerados, sem a expectativa de modificar o pH vaginal.

Como a menopausa afeta o microbioma vaginal?

A redução do estrogênio durante a menopausa pode diminuir a presença de lactobacilos, modificar o pH vaginal e alterar a composição da microbiota. Essas mudanças podem ocorrer junto a sintomas como ressecamento, ardência e desconforto, embora nem todas as mulheres apresentem essas manifestações.

Fontes e leitura complementar

Nota editorial: conteúdo educativo; não substitui avaliação individual por profissional de saúde.

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