Existe um clube de mulheres que sabem tudo sobre sexo. Pena que ninguém conhece uma sócia.

Muitas mulheres negociam aumento de salário, discutem política no almoço de domingo, pedem divórcio, criam três filhos, declaram imposto de renda e mandam um áudio de sete minutos explicando, com argumentos irrefutáveis, por que a amiga precisa terminar aquele namoro.
Mas chegam ao consultório e perguntam, quase sussurrando:
“Doutora, posso fazer uma pergunta meio boba?”
Pode. Aliás, é para isso que a gente está aqui, né?!
E, sejamos sinceras, pergunta nenhuma é boba. Um odor diferente, uma ardência depois do sexo, uma mudança na libido, uma dúvida guardada há vinte anos. Tudo isso importa.
Às vezes, a mulher já pesquisou na internet, perguntou para uma amiga, consultou a inteligência artificial, passou por um fórum de procedência questionável e chegou a uma de duas conclusões: ou tem uma doença raríssima, ou está tudo absolutamente normal (porque a medicina do Google não trabalha com nuances, né?!). E continua com vergonha de perguntar para a sua própria médica.
Em algum momento, alguém decidiu que a vulva era um assunto ultrassecreto e reservado e nós seguimos essa regra com uma disciplina que, se aplicada à organização financeira, provavelmente deixaria todas nós milionárias.
Aos 13 anos, escondíamos o absorvente na manga da blusa para atravessar a sala de aula. Como se estivéssemos transportando material radioativo.
Aos 25, inventávamos desculpas para não transar quando o sexo não estava confortável. Dor de cabeça, cansaço, estresse do trabalho. Qualquer explicação parecia mais simples do que dizer que o sexo não estava bom.
Aos 40, discutimos carreira, investimentos e o futuro do casamento, mas ainda travamos na hora de dizer que o sexo mudou e que a vulva está diferente.
Aos 50, descobrimos que a menopausa vinha com um manual de instruções. Só esqueceram de entregar o manual.
Claro que nenhuma vida segue exatamente esse roteiro. Mas a falta de informação atravessa gerações com uma eficiência admirável.
Passamos a adolescência ouvindo basicamente três instruções: não engravide, não pegue doença, não faça besteira. Sobre prazer, sobre conhecer o próprio corpo ou sobre o que muda na intimidade ao longo da vida, quase nada.
É impressionante o quanto esperavam que aprendêssemos por conta própria, já que durante boa parte da nossa educação sexual, sequer nos apresentaram adequadamente ao clitóris.
O clube das mulheres sexualmente resolvidas
Existe uma impressão muito difundida de que as outras mulheres sabem alguma coisa que a gente não sabe.
Será que elas receberam um manual de instruções que o correio esqueceu de entregar na nossa casa?
Elas sabem do que gostam. Têm uma relação maravilhosa com o próprio corpo. Não precisam pesquisar assuntos constrangedores na aba anônima do navegador. E, se alguém perguntar como anda a vida sexual, provavelmente responderão “ótima”, sem precisar considerar todas as variáveis envolvidas na pergunta.
Mas isso é só o que imaginamos. Porque, na prática, sabemos muito pouco sobre a intimidade umas das outras.
Sabemos quem traiu, quem se separou, quem voltou com o ex (infelizmente). Sabemos detalhes do divórcio de uma conhecida que encontramos duas vezes na vida. Temos informações sobre a vida amorosa de pessoas que nem sequer gostamos. Mas podemos passar anos sem descobrir que uma amiga tem a mesma dúvida que a gente.
E aí está uma das grandes ironias da vida adulta: passamos tempo demais tentando descobrir se somos normais, enquanto evitamos justamente as conversas que poderiam mostrar que não existe uma experiência feminina universal.
É claro que nem toda intimidade precisa ser compartilhada. Ninguém é obrigado a transformar a própria vida sexual em assunto de mesa de bar. Só que existe uma diferença enorme entre escolher não contar e acreditar que não se pode perguntar.
Com certeza, as mulheres desse clube também têm dúvidas, também sentem vergonha, se comparam, mudam de ideia e, às vezes, não sabem explicar o próprio desejo.
Porque a verdade é que esse clube não existe. O que, convenhamos, é um alívio. Uma mensalidade a menos para pagar.
Perguntas que ninguém fez em voz alta
Foi por isso que resolvemos abrir um espaço novo aqui na It’s a good vulva day: Perguntas que ninguém fez em voz alta.
Funciona assim: você nos manda, anonimamente, aquela pergunta que sempre quis fazer, mas nunca encontrou o momento, a pessoa ou a coragem. Pode ser sobre sexo, desejo, menopausa, prazer, relacionamentos, mudanças no corpo ou qualquer outra coisa que envolva a intimidade feminina e não precisa ser uma pergunta médica, tá?!
A cada edição, vamos escolher uma dessas perguntas para conversar por aqui.
Algumas terão explicações científicas. Outras vão nos levar para discussões sobre cultura, expectativas, relacionamentos e todas as contradições de ser mulher.
Não prometemos respostas definitivas, mas prometemos tratar cada pergunta com o respeito que ela merece.
Então, qual é a pergunta que você nunca teve coragem de fazer?
Envie para o e-mail: contato@ginnyvcare.com.br
Depois de tantos anos escondendo absorvente na manga, já passou da hora de tirar algumas perguntas de lá também.
Camila Mendes – Ginecologista especialista em sexualidade
CRM/PR 32136 RQE 26736
It’s a good vulva day.
Perguntas frequentes
Quais são as dúvidas mais comuns sobre sexualidade feminina?
Mudanças na libido, dificuldade para sentir prazer, dor durante a relação sexual, ressecamento vaginal e dúvidas sobre o próprio corpo estão entre as questões que muitas mulheres levam ao consultório. Apesar de frequentes, esses assuntos ainda são cercados de vergonha e desinformação. Nenhuma dessas perguntas é boba, e todas merecem atenção.
É normal sentir vergonha de falar sobre sexo com a ginecologista?
Infelizmente, sim, muitas mulheres sentem constrangimento ao falar sobre sexo, prazer e saúde íntima, especialmente quando cresceram sem espaço para essas conversas. Mas a consulta ginecológica também é um lugar para esclarecer dúvidas sobre sexualidade. Não é preciso esperar que exista um problema para fazer uma pergu
Por que o desejo sexual feminino muda ao longo da vida?
O desejo sexual feminino pode variar por fatores hormonais, emocionais, físicos e relacionais. Estresse, medicamentos, mudanças na rotina, gravidez e menopausa também podem influenciar a libido. Essas variações não significam necessariamente uma disfunção. Quando causam sofrimento ou preocupação, vale buscar orientação profissional.
Sentir dor durante a relação sexual é normal?
A dor durante o sexo não deve ser considerada algo que a mulher precisa suportar. Ela pode estar relacionada a ressecamento vaginal, alterações do assoalho pélvico, condições ginecológicas e outros fatores. Se a dor é recorrente, é importante investigar a causa. Sexo não precisa ser sinônimo de desconforto.
Por que a educação sexual feminina ainda deixa tantas dúvidas sobre prazer?
Historicamente, boa parte da educação sexual se concentrou na prevenção da gravidez e de infecções sexualmente transmissíveis, dedicando menos espaço ao prazer, ao desejo e ao conhecimento do próprio corpo. Uma educação sexual abrangente também precisa falar sobre anatomia, consentimento, relacionamentos e as mudanças da sexualidade ao longo da vida.
Fontes e leitura complementar
- ACOG — Your Sexual Health
- Organização Mundial da Saúde — Comprehensive Sexuality Education
- ACOG — When Sex Is Painful
Nota editorial: conteúdo educativo; não substitui avaliação individual por profissional de saúde.
Conheça a linha Ginny V-Care
Espuma de higiene, sérum desodorante e bruma íntima para a sua rotina.
Ver produtos

